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Guerra e Ética: Quais são as responsabilidades da comunidade de investidores?

    A invasão da Rússia à Ucrânia teve repercussões em toda a comunidade global de investimentos. Existem as repercussões óbvias: a crescente volatilidade nos mercados de ações e commodities, bem como a inflação em alta. Mas também existem efeitos mais sutis: a guerra obrigou os profissionais de investimento a navegar por áreas cinzentas complexas, onde suas escolhas podem ser legais do ponto de vista regulatório, mas questionáveis do ponto de vista ético.

    A Guerra Rússia-Ucrânia não é o primeiro conflito a afetar a indústria financeira dessa maneira, mas mudou a realidade no terreno para os praticantes. A comunidade de investidores precisa reconhecer isso e agir de acordo. A ameaça de conflitos desse tipo e suas consequências levantam questões importantes que nós, como comunidade, devemos abordar.

    Códigos de padrões profissionais, como o Código de Ética e Padrões de Conduta Profissional do CFA Institute, orientam as pessoas que enfrentam dilemas éticos do mundo real. Esses dilemas são como cruzamentos de estrada, e o código de conduta serve como um mapa que nos diz qual caminho seguir. Mas um mapa é útil apenas enquanto reflete com precisão a realidade. Quando a realidade muda, o mapa precisa ser ajustado. Caso contrário, aqueles que seguem pelo caminho errado podem enfrentar uma intersecção mais complexa adiante.

    Os gestores de carteira devem possuir ações de empresas que desempenham algum papel em agressões militares, mesmo quando isso é perfeitamente legal? Um consultor deve romper os laços com um cliente envolvido direta ou indiretamente em tais conflitos? Onde devem ser traçadas as linhas?

    Questões relacionadas a guerra não são exclusivas da profissão de investimento, portanto, as respostas a essas perguntas devem ser orientadas por normas e princípios morais gerais. Mas existem poucos fenômenos que causam tanto dano aos mercados de capitais ou à sociedade como um todo.

    A guerra representa riscos não apenas para a lucratividade da indústria de investimentos, mas também para sua reputação e credibilidade. Profissionais financeiros ou instituições que ajudam um governo a fazer guerra para desestabilizar a ordem mundial baseada em regras dificilmente podem fortalecer a confiança do público nos mercados financeiros ou na profissão de investimento.

    Precisamos estar atentos a esses riscos. A invasão russa da Ucrânia demonstrou que a guerra tem efeitos em cascata dramáticos que se estendem muito além da linha de frente e são difíceis, se não impossíveis, de serem previstos. O que parecia sólido pode desmoronar em questão de dias. Antes da guerra, as ações russas eram negociadas em bolsas estrangeiras. Muitas tinham classificações de “compra” pelas principais casas de investimento. Logo após o ataque russo, elas não tinham mais valor. Clientes ricos com relacionamentos estabelecidos tiveram suas contas bloqueadas. Acordos lucrativos tiveram que ser cancelados e negócios tiveram que ser liquidados. Em determinado momento, o mercado ficou se perguntando se os bancos agentes iriam transferir os pagamentos de cupom do governo russo para seus credores. Há um ano, essas preocupações teriam levantado mais do que algumas sobrancelhas. O conflito mudou tão radicalmente o cenário de investimentos que as regras devem ser ajustadas para se manterem relevantes.

    A questão é: como devem ser essas novas regras? Agora é a hora de iniciar essa discussão. Deveria haver regras explícitas que exijam que investidores e instituições se desvinculem de atividades relacionadas à guerra em certas circunstâncias? E quanto a uma abordagem de triagem de exclusão?

    Nunca é fácil encontrar um denominador comum em questões éticas complicadas e dividas. De fato, não existem soluções perfeitas para esses dilemas, mas isso não significa que soluções não sejam possíveis. A indústria de investimentos poderia promover uma abordagem semelhante à abordagem ambiental, social e de governança (ASG) quando se trata de conflitos militares. Isso poderia se materializar na forma de orientações sobre melhores práticas ou divulgações de informações relacionadas à guerra para clientes atuais e potenciais. Essas informações podem incluir uma lista de empresas em carteira que realizam negócios no país agressor ou uma estratégia de desinvestimento detalhando como os títulos de tais empresas serão excluídos no futuro. Sem dúvida, outras soluções potenciais surgirão ao longo dessas conversas.

    O conflito Rússia-Ucrânia demonstrou que as consequências de grandes guerras são impossíveis de serem previstas e são grandes demais para serem ignoradas. Por isso, a comunidade de investimentos precisa se unir para desenvolver padrões comuns a serem aplicados quando esses conflitos estourarem, mas com o objetivo final de evitá-los desde o início.

    Vamos começar a discussão.

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    Todos os posts são opiniões do autor. Como tal, eles não devem ser interpretados como conselhos de investimento, nem refletem necessariamente as opiniões do CFA Institute ou do empregador do autor.

    Imagem cortesia de GoToVan, licenciada sob a licença Creative Commons Attribution 2.0 Generic.

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